29/01/11

Parabéns rapazes!


“Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.” Bill Shankly

Esta frase do mítico treinador do Liverpool, talvez a mais famosa da história do futebol, coloca em perspectiva uma ideia de vivência do fenómeno bem para além daquilo o que se considera normal no quotidiano de individuo com ambições, prioridades e experiência de vida médias. É um tremendo exagero, claro: há bem mais para além do futebol, e mal seria se assim não fosse...

Desde já, posso dizer-vos que discordo, em absoluto, desta forma de ver o jogo e de conceber a vida. Mas se algum dia estive perto de sentir na pele a filosofia de Shankly, terá sido ontem (e sim, também estive no estádio naquele jogo em que empatámos a 2 com o Marítimo e assegurámos a manutenção nos últimos minutos da última jornada...).

Confesso que ia algo descrente para o jogo mais importante da época (até ontem!) para a nossa Briosa (não gostei, como deixei aqui escrito, das nossas exibições contra Paços e Olhanense e desconfiava - justificadamente, diga-se...- da equipa de arbitragem). A minha descrença materializou-se mal olhei para o relvado (o atraso foi a consequência óbvia de uma ginástica logística para reunir, a tempo e horas, gente que chegava do trabalho, da Guarda, de Braga e Lisboa... valeu a diligência dos colegas do blogue). Ataque do Setúbal, defesa providencial do Peiser, recarga quase sem ângulo e a bola a entrar na nossa baliza devagar, devagarinho perante a calma (ou paragem cerebral...) do nosso “central adaptado a jogador de futebol”, Habib Sow (crédito da expressão para o amigo H.).

E pronto, ainda não me tinha sentado e já tinha perdido a compostura: um chorrilho de asneiras, insultos e impropérios dirigidos ao rapaz, que até pode ser muito boa pessoa e que afinal não tem tanta culpa assim (a culpa é de quem o contratou e, pior ainda, de quem o coloca em campo...). Sim, admito, o sujeito que não parou de gritar obscenidades era eu. Triste, sem dúvida, mas o futebol é assim: tem o poder de transformar um sujeito tranquilo no maior “carroceiro” do burgo (a malta já está acostumada e a minha namorada, então... não se pode ver a Briosa ao meu lado). Portanto, ainda não tinha aquecido o lugar, já perdíamos por 0-1, já tinha percorrido o meu catálogo de palavras obscenas, já tinha envergonhado família, amigos e namorada, e já tinha estado à beira de uma apoplexia.

Começou, então, com a bênção do senhor do apito, uma fase de anti-jogo do Setúbal, enervante até para o mais calmo dos adeptos e lá se foi a última réstia de civismo. Lembro-me de pensar que tínhamos a eliminatória perdida e sentia-me a entrar na agonia de um dejá vu, tantas e tantas vezes sentido na pele pelo sofredor adepto da preta. Jogada após jogada, o perigo rondava a baliza adversária: ao lado, por cima, nos pés ou nas cabeças dos defesas, ou nas mãos do guarda-redes, minuto após minuto, tentávamos e falhávamos...

Mas ontem foi diferente: o querer, a vontade e o brio dos jogadores veio ao de cima e, com aquele futebol a que esta equipa já nos habituou, conseguimos o empate e, minutos depois, virámos o marcador. Oh alegria suprema! Fez-se justiça e consegui finalmente sentar-me decentemente.

O intervalo chegou logo a seguir e com ele a tranquilidade suficiente para recuperar das emoções vividas na primeira parte e trocar impressões com a malta.

Esperávamos uma segunda parte de nervos à flor da pele, com os nossos a fecharem os caminhos para a baliza a todo o custo, confiando nas capacidades de uma defesa tantas vezes titubeante. Não foi bem assim: a equipa adoptou, de facto, uma atitude mais expectante, mas não abdicou do contra-ataque. Curiosamente, os de Setúbal não conseguiram grandes ocasiões de perigo e as bolas que chegavam à baliza eram resolvidas pela frieza de São Peiser. Vivi este período bem mais tranquilo e mais tranquilo fiquei quando Habib saiu lesionado (bem sei, não é coisa que se diga, mas não consigo perceber a utilidade deste “jogador”). A Mancha é que não parava de apoiar a equipa com cânticos de incentivo, gritos de ordem e até um petardo (!).

Com o aproximar dos minutos finais, o coração voltava a bater mais forte e puxámos pela equipa até ao limite das gargantas (proeza da qual ainda não recuperei). A nossa defesa ia chegando para os fogachos da equipa do Sul e até tivemos algumas oportunidades para fechar o jogo.

Eis que, em jogada de insistência, Paraíba é atropelado na área do Setúbal e o árbitro marca penálti (quem diria, um penálti a nosso favor!). Estádio em silêncio, Bischoff corre para a bola e... já está: 3-1! Saltámos, gritámos, abraçámo-nos e começámos a fazer planos para os jogos das meias.

Mas ser da Briosa é assim: não basta ganhar, é preciso sofrer q.b. antes de festejar. Por isso, logo em seguida, em lance muito confuso, os visitantes fazem o 3-2 e voltou a intranquilidade. Pairava o fantasma de outras contendas e o coração brioso preparava-se para sofrer. Foi aí, ao longo dos 8 minutos em que se haviam transformado os 5 que o árbitro concedera de tempo extra, que mais se ouviram os incansáveis adeptos da nossa Académica (sempre liderados pela grande Mancha Negra). Fomos ao fundo dos pulmões buscar o fôlego que já não tínhamos e lutámos ao lado da equipa que no relvado defendia estoicamente a baliza. O árbitro é que não queria ajudar e prolongou ao máximo aqueles eternos 5 minutos (que acabaram por ser 8!).

Apito final. Vencemos! Pulos, gritos, abraços e felicidade a rodos: 28 anos depois, estávamos nas meias da Taça de Portugal, a mesma que ganháramos na sua primeira edição, nos idos de 39... Os jogadores, sempre liderados por Berger e Peiser, vieram agradecer aos adeptos o apoio dispensado durante os 100 minutos (47 + 53) e festejou-se nas bancadas (e, muitos de nós, pela noite dentro;).

Parabéns rapazes!

P.S.: Tenho de acrescentar que no nosso grupo havia gente adepta dos estarolas Porto, Benfica e Sporting. Fizeram questão de estar presentes e gritaram, cantaram e puxaram pela equipa tanto ou mais do que outros adeptos da nossa Briosa. Não é saudável para o clube fechar as portas a esta gente...

O sonho continua!

Saudações Académicas,

Pedro Monteiro Almeida

6 comentários:

mitic0 disse...

"eh pá!" Texto de antologia. Devia figurar na bíblia da autoria do João Santana e João Mesquita.

Abraço.

Fora-de-jogo disse...

Parabens pelo excelente blog.

Adicionamos o vosso link, façam o mesmo com o nosso.

Um abraço

mitic0 disse...

Feito.

Estou aqui a ver o Gil Vicente e o Hugo Vieira e o Zé Luís estão-se a destacar e de que maneira.


No Estoril aquele Vinícius, os laterais (Jeffersson e Anderson Luis), e o Alex afonso jogaram muito bem.

Miguel disse...

Também tem aqui um belo blog, sim senhor.

Confesso que sou um admirador e apoiante da Briosa, pelo que serei seu visitante assiduo certamente.

Meta o link do meu blog que eu tbm ponho o seu.

http://imperiofutebolistico.blogspot.com/

Abraços

mitic0 disse...

Já está. É sempre bom descobrir mais um apoiante da Académica. Faça favor de cá vir dar a sua opinião!

Aqui neste blog queremos ser sempre inclusivos, dinamizando cada vez mais um clube que pelo seu património histórico merece muito mais. Daí agora a nossa ligação recente a outros sites sobre futebol.


Cumprimentos desportivos!

Tiago Fernandes disse...

Grande texto parceiro!

Abraço