26/02/11

VSC 0 - 2 AAC: análise ao jogo e classificação dos intervenientes

Apreciação global

A Briosa quebrou ontem à noite em Guimarães a série negra de oito jogos sem vencer a contar para o Campeonato (o último triunfo acontecera a 26 de Novembro de 2010, frente ao outro “Vitória”, em Setúbal). Com 6 derrotas e 2 empates nesses últimos 8 jogos na Liga ZON Sagres, ninguém apostaria num resultado tão saboroso, em casa do actual 4º classificado.

O cepticismo tinha razão de ser: o “assassínio táctico” de tudo o que de bom a equipa havia assimilado desde o início da temporada, perpetrado pelo antigo “treinador”, José Guilherme, aliado aos inerentes péssimos resultados desportivos, haviam acabado com a moral dos jogadores e com o futebol da preta. Além disso, o novo treinador, Ulisses Morais, havia orientado apenas dois treinos, o que seria sempre insuficiente para alterar o rumo dos acontecimentos. A soma de todas estas premissas levava a um resultado “lógico”: a derrota...

Mas ontem não foi assim.

Para grande alegria da Nação Academista, a “chicotada” conseguiu mesmo dar o tão falado “clique” à equipa. O tanatismo amorfo evidenciado pelos jogadores em embates recentes - antítese do brio personificado na garra, na vontade, e no esforço que caracterizam esta equipa há mais de um século - deu lugar à luta, aos dentes cerrados e aos punhos em riste. Desde cedo no jogo se via no semblante dos nossos a determinação e o querer de quem não está disposto a deitar a toalha ao chão e a aceitar mais uma derrota. E vencemos mesmo: 0-2!

Não serei pretensioso ao ponto de dizer que fomos melhores que o adversário, ou que fizemos um grande jogo, mas creio que merecemos este desfecho pelos quilómetros que corremos, pelo suor que deixámos nas camisolas e pele que deixámos em campo. E pronto, conseguimos os 3 pontos de que já necessitávamos “como de pão para a boca” e, mais que tudo, voltámos a ter uma equipa unida, imbuída de espírito de grupo (foi linda, aquela imagem no fim do jogo, com treinador e jogadores abraçados, festejando JUNTOS o triunfo COLECTIVO – aprenda, Professor José Guilherme!).

Acrescento ainda um dado importante: esta vitória também pode servir para mostrar aos nossos que é possível chegarmos ao Jamor... O adversário que hoje vencemos “fora” por 2-0 é o mesmo que teremos de vencer pela mesma margem para conseguirmos chegar ao “Sonho”.

Por isso, como diria Mourinho, “esta vitória vale [pode valer...] 4 pontos”...

Numa consideração final, farei minhas as palavras de Sir Alf Ramsey: “Uma vitória não faz uma equipa!”. É preciso continuar a trabalhar com humildade, espírito de missão e muito brio...


O treinador e a arrumação táctica

Ponto prévio: Ulisses Morais orientou apenas dois treinos antes deste jogo, pelo que há uma parte da vitória que não é só “dele” (aliás, o próprio teve o bonito gesto de agradecer aos seus predecessores o trabalho que desenvolveram na equipa – embora, na minha opinião, apenas Jorge Costa tenha contribuido com algo para a vitória de ontem, e já explicarei porquê...), além disso, São Peiser tem muita “culpa” no resultado.

Ao contrário do seu antecessor, Ulisses Morais teve o discernimento de saber “ler” o plantel: como já aqui disse no “reinado experimental” de J. Guilherme, não é preciso ter um curso superior para perceber que não é a meio da época que se altera a formatação dos jogadores e da equipa... Outro mérito do nosso actual treinador foi “não inventar”: nem no sistema táctico, nem nas posições dos jogadores, mas já lá vamos.

Ulisses Morais “arrumou” a equipa no seu tradicional 4x3x3, trabalhado de alguns anos para cá, com duas honrosas excepções (R. Gonçalves e J. Guilherme). Este esquema-base, já utilizado esta época por Jorge Costa com bons resultados, trouxe boas reminiscências uma vez que a transição ofensiva é muito semelhante à que vimos no início da época: em vez de fazer circular a bola na primeira fase de construção, ressuscitou-se o contra-ataque rápido, optando-se por colocar a bola logo que possível nas alas ou nas costas da defesa contrária. O jogo ofensivo torna-se, desta forma, mais rápido, mais largo, mais fluido e muito mais objectivo. Resultado: conseguimos isolar os nossos atacantes pelo menos em 4 ocasiões, duas das quais resultaram em golo. Igualzinho ao que vínhamos fazendo com J. Costa...

Defensivamente, a equipa apresentou ligeiríssimas alterações, mormente na configuração do meio-campo: os três elementos jogam agora mais juntos, assegurando maior índice de recuperação de bolas. Ainda assim, quer-me parecer que os alas adversários acabam por conseguir muito espaço para organizarem o seu jogo, uma vez que reduzir tanto o espaço no centro do terreno só dará frutos quando os nossos alas ajudem a fechar os corredores. E isso pode vir a ser problemático uma vez que nem D. Valente nem Sougou têm essa apetência... Mas ontem correu bem... De resto, o 4x1x4x1 com que a equipa jogava no final foi muito bem ensaiado dadas as vicissitudes do jogo e o desgaste natural dos jogadores.

Além disso, as próprias substituições foram feitas em sintonia com as exigências do jogo e do resultado.

Por fim, deixo umas notas do jogo de ontem para J. Guilherme:

- é possível defender um resultado sem colocar o trinco dentro da área, como terceiro central;

- mudar o ADN da equipa a meio da época não tem nada de sensato;

- Sow é trinco (mais-ou-menos...) e não central;

- D. Valente é um ala e não um 10;

- Luiz Nunes não é assim tão mau;

- e é possível alcançar um outro resultado para além das derrotas e empates.

Numa apreciação global, temos de considerar de muito positiva a entrada de Ulisses no comando técnico da equipa (eu, pelo menos, fiquei bastante surpreendido). Vejamos como se porta daqui em diante. NOTA 4


Árbitro

Muito contra aquilo a que estamos habituados por estas bandas, teremos de admitir que Hugo Pacheco fez um bom trabalho. Não se deixou intimidar pelas bancadas nem pela pressão exercida pelo banco do VSC. Nas duas situações mais problemáticas parece ter estado bem: apesar das dúvidas que me suscitou o lance de Sougou aos 20’, parece ter havido mesmo fora-de-jogo; também esteve bem ao não assinalar penálti na queda de João Alves aos 40’ (faltou foi o cartão amarelo por simulação). De resto, e ao contrário do que possam dizer os adversários, não permitiu anti-jogo uma vez que não demorou a sancionar quer Peiser, quer Addy por perdas de tempo na reposição de bolas em jogo. Por outro lado, uma ou outra falta mal assinalada e um canto mal marcado a favor do VSC. Numa apreciação global, creio ter feito um bom trabalho (oxalá tivéssemos muitos destes!). NOTA 4


Os jogadores, um a um

São Peiser: Faltam-me adjectivos. Fabuloso, maravilhoso, fantástico, extraordinário, estupendo, assombroso. Absolutamente decisivo, merece, mais uma vez o título de “Melhor em Campo”. Defesas importantíssimas aos 9’ (espectacular!), 10’, 18’, 48’, 51’ (brutal!), 72’, 73’ e 77’ (impressionante!)... A própria enumeração cansa... Continuo a dizer: RENOVEM-LHE JÁ O CONTRATO!!! NOTA 4,5

Pedrinho: Continua a crescer à medida que a intranquilidade diminui. Ficou na retina um corte aos pés de João Ribeiro à passagem da meia-hora. De resto, muito mais concentrado do que aquilo a que nos habituou, raramente concedeu grandes espaços no seu flanco. Praticamente não se viu nas manobras ofensivas. NOTA 3

Luiz Nunes: O esquecimento a que costuma ser votado é uma incógnita enorme para mim. É inegável que tem peso a mais e velocidade a menos, mas é impecável no jogo aéreo, apresenta óptimos níveis de concentração e não inventa. Apesar de ter sido ultrapassado por Edgar em pelo menos duas ocasiões, ajudou Peiser a salvar um golo feito aos 73’. Muito certinho. NOTA 3

Berger: É um dos jogadores que mais admiro no nosso plantel. Parece que não sabe jogar mal: notável a frieza que demonstra nos cortes rente ao chão (Edgar e Douglas que o digam) e excelente a posicionar-se na área. Contribuição muito importante para a solidez defensiva da equipa. Bom jogo. NOTA 3,5

Pedro Costa: Não é Hélder Cabral, mas ontem não comprometeu. Esteve bem a vigiar as subidas de Alex e não se atemorizou com os devaneios de Toscano. Ainda assim, está ligado ao lance mais perigoso do adversário quando deixou fugir João Paulo, que rematou à trave aos 45’. Também não atacou e acabou por sair lesionado ao intervalo. NOTA 2,5

Adrien: Colocado mais atrás (na sua posição...), sentiu-se “como peixe na água”, roubando imensas bolas e parando um sem-número de ataque do VSC. Para além disso, foi importantíssimo nas saídas rápidas para o contra-ataque, demonstrando discernimento ao isolar primeiro Diogo Valente e, mais tarde, Éder, no lance do golo. Um dos melhores. NOTA 3,5

Diogo Gomes: Foi incansável: lutou no meio-campo até aos limites das suas forças e demonstrou bom entrosamento com os seus colegas de sector. Foi ainda muito importante quer a segurar a bola, quer a lançar contra-ataques. Grande pontapé para grande defesa de Nilson aos 36’. Saiu esgotado aos 70’, após ter recebido um cartão amarelo. Merece mais oportunidades. NOTA 3

Hugo Morais: Talvez o menos vistoso do meio-campo por as vicissitudes do jogo o obrigarem, amiúde, a recuar para ajudar Adrien. Durante grande parte do tempo foi quase um segundo pivô defensivo e lutou imenso, apesar de nem sempre com discernimento. Pede-se-lhe mais rapidez a soltar a bola. Esforçado. NOTA 2,5

Sougou: Após alguns jogos mal conseguidos, parece ter recuperado a confiança. Muito veloz e acutilante, manteve Bruno Teles em sentido durante todo o jogo. Podia ter feito melhor aos 8’ quando chegou atrasado ao passe para golo de Diogo Valente, e ainda aos 30’ e aos 62’, lances em que lhe faltou calma. De resto, é dele o desenho do contra-ataque perfeito que resulta no golo de Laionel. Muito bem. NOTA 3,5

Diogo Valente: Deu imenso trabalho a Alex e João Pedro no flanco esquerdo. Aos 8’ centrou “com régua e esquadro” para Sougou falhar à boca da baliza e marcou bem o livre que resultou no golo anulado ao mesmo jogador aos 21’. Aos 48’, isolado frente a Nilson devia ter feito bem melhor, atirando às malhas laterais e aos 64’ mediu mal o “chapéu a Nilson”. Saiu aos 75’ quando já acusava algum cansaço. Importante. NOTA 3

Éder: Bela exibição do ponta-de-lança da Briosa a mostrar que, neste momento, é o dono do lugar. Mais do que o golo à ponta-de-lança que marcou (desmarcou-se, correu até à baliza e desfeiteou Nilson com frieza e classe), foi ainda importantíssimo a ganhar bolas no meio-campo adversário e a fixar os centrais. Boa jogada para Sougou desperdiçar aos 68’ e desperdiçou, ele próprio, uma boa jogada aos 83’. Grande exibição. NOTA 3,5

Addy: Entrou ao intervalo para substituir o lesionado Pedro Costa. Não se notou muito a diferença, o que é bom sinal. Teve uma ou duas hesitações na saída para o ataque que resultaram em perdas de bola, mas nada de grave. NOTA 2,5

Pape Sow: Entrou ao minuto 70’ para dar consistência ao meio-campo. Ajudou a preencher essa zona do terreno. Útil. NOTA 2,5

Laionel: Entrou “com a corda toda” aos 75’ para substituir Diogo Valente. Em 15’ em campo conseguiu criar uma jogada para Éder falhar aos 83’ e “matar” o jogo com um “chapéu” soberbo a Nilson. Decisivo. NOTA 3


E pronto, com 24 horas de atraso (porque o tempo não chega para tudo), aqui fica a minha apreciação desta grande vitória da nossa Briosa. Oxalá voltemos a festejar já na sexta-feira. Lá estarei!

Saudações Académicas,

Pedro Monteiro Almeida

5 comentários:

Freedom disse...

A minha vénia a este post!

Touché

Sarabia disse...

Excelente. Já não dispenso a minha visita diária ao vosso espaço...ainda que não comente.
Vale mesmo a pena visitar os amigos "Capas Negras".

Briosa para sempre

guito disse...

grande post

Miguel disse...

Mais um grande post de um blog que visito regularmente.

talvez ulisses seja uma aposta acertada.

Confronto directo #3 a decorrer: Quem é melhor? Ricardo Carvalho ou Puyol?

Vote SFF:

http://imperiofutebolistico.blogspot.com/2011/02/confronto-directo-3-puyol-ou-ricardo.html

pmalmeyda disse...

Agradeço os comentários simpáticos, tentaremos continuar a fazer ainda melhor (assim a disponibilidade - agora muito limitada - o permita).

Oxalá a Briosa nos faça escrever uma avaliação bem positiva na próxima sexta-feira... Lá estaremos para assistir ao jogo e, se tudo correr como desejamos, a mais uma vitória da nossa Briosa!

Saudações Académicas