07/02/11

Ser da Académica - Parte 1


Confesso que no actual estado das coisas, é muito difícil ter inspiração e emoção para escrever um post como aquele que tenciono escrever.

Poder ir ao Jamor não apaga todos aqueles momentos de desespero vividos em pleno Estádio Cidade de Coimbra (ECC) quando a bola se aproxima perigosamente do nosso fabuloso Keeper (não fora ele e andávamos a jogar à bisca com a Naval e com o Portimonense). E não esquecer o discurso muito pouco ambicioso e motivador de um treinador cuja meta é o count down para a manutenção. Assim não dá meus caros. É necessário pensar a Briosa e, acima de tudo agir.

Neste primeiro post, abordarei o porquê e a forma do amor aos rapazes de negro. Com algumas reflexões que humildemente aqui deixarei, relacionadas com este interessante fenómeno.

É certo e sabido que a Briosa é muito mais que um clube. É um estado de alma e é acima de tudo um símbolo daqueles que, daqui a alguns anos, recordarei como os melhores anos da minha vida. Não só para mim mas, para muitos outros que, como eu passaram pela cidade dos estudantes.

Como muitos outros, foi com a vinda para a cidade dos estudantes que comecei a frequentar o estádio e a ver a Briosa ao vivo. Primeiro para ver os jogos dos três grandes e mais tarde para, de forma assídua apoiar a nossa equipa.

É precisamente nesta evolução/transformação que está o busilis da questão. Mais do que um clube de uma cidade (como o Vitória por exemplo), de uma classe social (de que o Nacional é exemplo na Madeira), a Académica ( perdoem-me que não use o OAF em sinal de protesto) é um clube de uma vastidão de pessoas. De um mar de gente que vai desde as gentes de Coimbra a todos aqueles que por cá passam e aqui constroem um amor único e duradouro por aquela camisola negra. Um amor que fica para a vida e nos consome por dentro.

É pois aqui que reside para mim um (dos dois) dos dois maiores pecados da Briosa - o não aproveitamento deste amor, o seu não cultivo e pior, a sua rejeição.

Passo a explicar, quantos dos homens mais abastados deste país não se formaram em Coimbra? A quantos é que as sucessivas direcções da AAC recorreram para se investir sem ter de recorrer à banca ou a negociatas? Este capital humano é imenso e não se pode desperdiçar. É um capital que vem directo do nosso coração e que é imperioso usar. A Briosa não pode continuar a ser um clube fechado, voltado de costas para todos aqueles que sentem um calafrio na espinha quando vêm aquela camisola na televisão. É pois este o meu exemplo para o não aproveitamento deste amor em prol do nosso clube.

Digo televisão de forma propositada. Alguém duvida que, só os estudantes de Coimbra, encheriam totalmente o Cidade de Coimbra, se se afastassem do televisor e fossem ao estádio? Estou certo que não. Se assim é, porque é que nada se faz para os levar ao Estádio? Não será acabando com o Black Shot que a coisa se resolve e por certo com a marcação de jogos para as 4 da tarde de Domingo também não. Qual era a média de espectadores nos anos em que existiam semelhantes promoções? E qual será a deste ano?. É um claro sinal de rejeição este meus caros. Como se poderá desenvolver e exponenciar (como deveria constituir primordial objectivo) este amor que estas acções?

E por favor não se diga que esses preços eram insultuosos para com os sócios da Briosa. Insultuoso para com estes ilustres academistas é chegarem ao Estádio e verem-no mais de metade fechado. Insultuoso é verem a mancha sempre só a puxar pela equipa. E insultuoso é o facto de o valor pago para ser sócio e cativo da Briosa ser um dos maiores do nosso país.

Termino a minha reflexão com uma pergunta. Será assim tão despropositado que a Académica se una às instituições de ensino superior existentes no concelho de Coimbra e crie um protocolo que permita a todos os estudantes do ensino superior serem automaticamente sócios da Briosa, com uma quota simbólica (1€ por mês por exemplo) e que, com as quotas em dia, possam comprar um bilhete de época por um valor não superior a 25€?

Com este passo creio que muita coisa mudaria. O estádio passaria a estar bem mais cheio. A Académica melhoraria a sua condição financeira pois, para além do momento momentâneo de receitas, como os valores correctos, muitos aquando do seu terminus académico, fariam questão de manter a sua ligação ao clube. E acima de tudo, esta paixão generalizava-se.

Uma linha para a Mancha Negra. Desconheço os apoios/protocolos existentes entre a claque e o clube. Mas que é um orgulho ver aquela malta em todos os jogos (desde o Portimonense ao FCP) a gritar e a apoiar a Briosa, isso é inegável.

A Briosa precisa urgentemente de mudar este status quo. Não falo de pessoas, falo de projectos e de obras. Mais do que as caras o que tem de mudar são as mentalidades. Pois só assim poderemos ser aquilo que podemos ser e não uma sombra do que já fomos....

Saudações académicas.

P.S. - reservarei para outros posts, outras reflexões sobre coisas como por exemplo gestão e política desportiva.

9 comentários:

FILIPE disse...

Só uma coisa contra:
- Chega de dar borlas a gente que já tem clube e só querem ir ver o SLBê.

Isso serem sócios por um euro só servirá para nos jogos de 3 clubes termos mais gente do clube adversário.

Para mim tem que se apostar nos jovens dos ciclos e secundários.
Porque esses sim são o futuro da Académica.

Agora nas faculdades é perder tempo e dinheiro.

FILIPE disse...

E a prova disso foi nos jogos em que os estudantes trajados tinham entrada livre e viu-se quantos foram.

Os que foram se calhar até são de Coimbra.

Os de fora não querem saber da Académica para nada.

pmalmeyda disse...

Eh lá... Grande texto, sim senhor... Estás em forma meu caro!

Deixaste aqui uma forma bastante lúcida de "colocar o dedo na ferida" em alguns dos nossos maiores problemas.

Que lindo seria, uma Briosa renascida, com a força de antigamente (força essa que anda escondida há tempo de mais).

Abraço companheiro!

Pedro Monteiro Almeida

Tiago Fernandes disse...

@ Filipe - Muito obrigado pelos seus comentários. Não posso no entanto deixar de discordar de si em alguns pontos que referiu. Os números de afluência ao estádio no enganam e parece-me que obrigar as pessoas a usar a capa e batina no estádio é bonito mas não leva lá ninguém. Deve-se e atrair todos, porque só todos é que seremos mais fortes (ainda que alguns tenham o coração dividido em algumas partidas).Devemos também perder o preconceito que temos para com os três grandes. A Briosa tem um lugar inigualável no panorama futebolístico português, não tem sequer rival dentro desse restrito lote de clubes. Em todo o caso, bem haja.

@ Pedro, pois é parceiro. É necessário desafiar as consciências e as mentalidades pois só assim a Briosa poderá vencer. Somos, infelizmente, no campo, um espelho do que, infelizmente, são as bancadas do Cidade de Coimbra ( excepto a Mancha Negra claro). Um abraço

mitic0 disse...

Muito Bom, sim senhor. Distraio-me um bocadinho e surgem logo aqui dois textos de enorme valia.

Acho que o reavivar da Briosa passa muito (tem mesmo de passar) pela Academia. Infelizmente, parece-me, a dinâmica de toda a cidade tem sido quase incipiente.
Pelo pouco que tenho visto, a Academia não está o que era.

Dias e dias que ando pela cidade e não vejo uma Capa e batina. Nem as habituais praxes. As AG´s, quando as há, estão vazias.

Pode ser um defeito de envelhecer, repito, mas tenho essa sensação.

Daí considerar o teu texto particularmente pertinente: não basta organização, há que apelar ao sentimento, à mobilização, e aproveitar o tal potencial humano.

Sem dúvidas que os protocolos com as instituições de ensino superior, o alargamento da influência na região Centro ( ofertas pontuais de bilhetes a jovens do distrito de coimbra e até de Viseu, Leiria e Aveiro), o financiamento fora da banca (desde que com regras transparentes), e, em suma, chamar a vida da cidade para o Estádio, são medidas essenciais já a curto prazo.

De qualquer maneira, e antes disto há uma necessidade premente a preencher. E essa necessidade chama-se departamento de gestão do futebol profissional.

Não é aceitável algumas das lacunas que o nosso plantel apresenta. Eu, por exemplo, não perdoo não terem adquirido um central (já para não falar de outro extremo).

Um abraço Académico.

Tiago Fernandes disse...

Caro mítico,

Obrigado pelo teu comentário.
Esse oasis que seria termos um departamento de futebol será tratado na parte 2 deste post.

Um Abraço

Sarabia disse...

Muito, mas muito bom. Texto com relevância dum ponto de vista objectivo para traduzir na prática e pleno de sentido e amplitude académica.

Briosa para sempre

Tiago Fernandes disse...

Caro Sarabia,

Muito obrigado pela apreciação positiva. Para além de ser um espaço de troca de opiniões entre os três, é por causa de leitores como o Sr. que o fazemos.

Continue a brindar-nos com a sua visita.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Caro Tiago Fernandes

Dantes todas as claques da AAC tinham entrada gratuita no estádio.
Bastava apresentar o cartão de sócio da AAC com quotas em dia e o respectivo cartão de sócio da claque, Mancha Negra, Cowboys, FANS.
Isto foi obtido através de uma AG.
Actualmente o sector das claques tem capacidade para 2000 pessoas e é ocupado na totalidade pela Mancha, nesse sector entram os socios da AAC com quotas em dia e cartão de epoca, ou bilhetes pontuais.
Tiago Branco